domingo, 15 de abril de 2018

E tudo isso sou eu


“Entro lentamente na minha dádiva a mim mesma, esplendor dilacerado pelo cantar último que parece ser o primeiro. Entro lentamente na escrita assim como já entrei na pintura. É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras – limiar de entrada de ancestral caverna que é o útero do mundo e dele vou nascer.

E se muitas vezes pinto grutas é que elas são o meu mergulho na terra, escuras mas nimbadas de claridade, e eu, sangue da natureza – grutas extravagantes e perigosas, talismã da Terra, onde se unem estalactites, fósseis e pedras, e onde os bichos que são doidos pela sua própria natureza maléfica procuram refúgio. As grutas são o meu inferno. Gruta sempre sonhadora com suas névoas, lembrança ou saudade? espantosa, espantosa, esotérica, esverdeada pelo limo do tempo. Dentro da caverna obscura tremeluzem pendurados os ratos com asas em forma de cruz dos morcegos. Vejo aranhas penugentas e negras. Ratos e ratazanas correm espantados pelo chão e pelas paredes. Entre as pedras, o escorpião. Caranguejos, iguais a eles mesmos desde a Pré-História, através de mortes e nascimentos, pareceriam bestas ameaçadoras se fossem do tamanho de um homem. Baratas velhas se arrastam na penumbra. E tudo isso sou eu. Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela – de fora dela vem o tropel de dezenas de cavalos soltos a patearem com cascos secos as trevas, e do atrito dos cascos o júbilo se liberta em centelhas: eis-me, eu e a gruta, no tempo que nos apodrecerá.”


Clarice Lispector,
Água viva, 1973

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Já vou


Odyr Bernardi


“Tenho que interromper porque – eu não disse? eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo. Um homem chamado João falou comigo pelo telefone. Ele se criou no profundo da Amazônia. E diz que lá corre a lenda de uma planta que fala. Chama-se tajá. E dizem que sendo mistificada de um modo ritualista pelos indígenas, ela eventualmente diz uma palavra. João me contou uma coisa que não tem explicação: uma vez entrou tarde da noite em casa e quando estava passando pelo corredor onde estava a planta ouviu a palavra ‘João’. Então pensou que era sua mãe chamando-o e respondeu: ‘já vou’. Subiu mas encontrou a mãe e o pai ressonando profundamente.”


Clarice Lispector, Água viva, 1973

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Porque parece que se tem de ser terrivelmente explícita


“Escrevo-te à medida de meu fôlego. Estarei sendo hermética como na minha pintura? Porque parece que se tem de ser terrivelmente explícita. Sou explícita? Pouco se me dá. Agora vou acender um cigarro. Talvez volte à máquina ou talvez pare por aqui mesmo para sempre. Eu, que nunca sou adequada.

Voltei. Estou pensando em tartarugas. Uma vez eu disse por pura intuição que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim ler que é mesmo. Tenho cada uma. Um dia vou pintar tartarugas. Elas me interessam muito. Todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento: fomos modelados e sobrou muita matéria-prima – it – e formaram-se então os bichos. Para que uma tartaruga? Talvez o título do que estou te escrevendo devesse ser um pouco assim e em forma interrogativa: ‘E as tartarugas?’ Você que me lê diria: é verdade que há muito tempo não penso em tartarugas.”



(Clarice Lispector, Água viva, 1973)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Minha órfã



Porque não quis te olhar, ficaste cega.
Sei que esperas por mim
Desde o tempo em que usavas tranças e brincavas com arco.

Sei que esperas por mim,
Mas eu não quis te olhar
Porque me debrucei sobre o mito de outras,
Porque não me sabes dar, pobre amiga,
O sofrimento e a angústia que formam a catástrofe.

Roxelane, Roxelane:
Porque tens olhar morto e cabelos sem brilho,
Boca sem frescura e sem expressão,
Eu te desdenhei e não ouvi teu apelo,
Teu último apelo vindo da solidão e da infância remota.

Roxelane, Roxelane:
Tua tristeza recairá sobre mim, assumirei tua orfandade,
Conhecerás o gozo e verás desdobrar-se a esperança,
Enquanto eu recolherei para sempre
A tua, a minha e a miséria de outros,
Triste e apagada Roxelane, vitoriosa Roxelane.



(Murilo Mendes, As metamorfoses, 1944)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Alguém, trajado de seda branca

Alguém, trajado de seda branca, percebe que não pode
despertar; pois está desperto e perturbado pela realidade.
Assim se refugia medrosamente no sonho, e permanece de
pé no parque, sozinho no negro parque. E, a festa é longe.
E a luz mente. E a noite o envolve, fresca. E pergunta a uma
mulher que para ele se inclina:
“És tu a noite?”
Ela sorri.
Então, ele se envergonha de seu traje branco.
E quereria estar longe, sozinho, armado.
Completamente armado.



(Rainer Maria Rilke, A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução: Cecília Meireles. Biblioteca Azul, 2013)

sábado, 16 de dezembro de 2017

Enfer du Plogoff

Foto: Ruprich-Robert, Gabriel (collection)
Crédito: Ministère de la Culture (France), 
Médiathèque de l'architecture et du patrimoine, Diffusion RMN-GP



“‘Adoro o mar e as planícies... mas não ligo para montanhas nem florestas... elas me esmagam, me sufocam.’ Na Inglaterra, encontrou horrendos precipícios abertos para o ‘barulho infernal do mar’, com pedras que se arrastavam por baixo e lá tinham caído ‘em eras ignotas, só se mantendo em equilíbrio por alguma inexplicável causa’. Houve também uma grande fenda, o Enfer du Plogoff, pela qual ela resolveu descer, apesar das misteriosas advertências do guia. Tomada a decisão, baixaram-na por uma corda presa num cinturão, no qual foi preciso fazer mais furos, pois sua cintura ‘não passava na época de 43 centímetros’. Já estava escuro e o mar bramia e havia um rumor confuso e contínuo, como se de canhões e de açoites e de gemidos dos réprobos. Por fim ela tocou o chão com os pés, na ponta de uma pequena pedra num turbilhão de água, e, amedrontada, olhou ao redor. Viu de súbito que era observada por dois olhos enormes; um pouco adiante, viu outro par de olhos. ‘Não via o corpo desses seres... e cheguei a pensar que já perdia a razão.’ Deu então um puxão com força na corda, sendo içada lentamente; ‘os olhos também subiam... e, enquanto eu me levantava no ar, por toda parte não via senão olhos – olhos que esticavam longos sensores para me alcançar... “São os olhos dos afogados”’, disse-lhe o guia, benzendo-se. ‘Que não eram olhos de afogados eu bem sabia... mas foi só quando cheguei ao hotel que ouvi falar sobre o polvo.’”



(Virginia Woolf, As memórias de Sarah Bernhardt, In: O valor do riso e outros ensaios.
Tradução: Leonardo Fróes. Cosac Naify, 2014) 

memória (II)